ESSA TERRA, PÁTRIA AMADA, ADORADA, SALVE, SALVE...
Ilza Matias de Sousa – UFRN
1 - Essa terra me chama
Brasileiro, baiano, de Junco, cidadezinha interiorana que “não ocupa um espaço decente no mapa do mundo”, o personagem de Essa terra, livro de Antônio Torres, lançado em 1976, é mais um imigrante nordestino em São Paulo, dilacerado entre seus sonhos, cóleras, ilusões e o chamado mítico da terra-mãe. Chamado poderoso, terrorífico, tropical que desperta um temor ancestral primitivo. Sua história é mais uma daquelas que saíram de um lugar esquecido nos confins do tempo (E.T. p. 15) e que voltaram. Mas é também a história daqueles que ficaram, fincados na terra. Em todos, os rastros nos corpos de algo que não está lá.
Nessa obra, a nação narra-se como narrativa de migração associada ao vazio identitário mestiço, no sentido que a isso atribui Darcy Ribeiro (1995:109): um vazio, um não-centro, uma terra de ninguém, a qual apropriada por mecanismos sócio-políticos e culturais excluidores promovem o estereótipo e a estigmatização do gênero:
Todo baiano é negro.
Todo baiano é pobre.
Todo baiano é veado.
Todo baiano acaba largando a mulher e os filhos para
voltar para a Bahia. (E.T. p. 47)
Abandonado e traído pela mulher, perseguido nas ruas como marginal, surrado, arrastado pelas calçadas, ele já não sabe se encontra-se em junco ou em São Paulo, esta, uma cidade deserta,na longa noite de provações. Não há espetáculo, nem olhar. A imagem: de um corno, ladrão, inimigo da ordem. O corpo, um limite a ser defendido na precária identidade, desfigurado, invadido, cercado. Sobrevive à morte, sem a intimidade substancial, exposto à terra, caído na terra, lançado nela às avessas de um corpo recém-nascido. Caído numa noite sem sonho.
O lugar de exclusão e a vida que é obrigado a levar o imigrante baiano de Essa Terranum grande centro de consumo e, ao mesmo tempo, fora deste, colocam-nos diante da cisão do sujeito na construção da identidade da brasilidade. Fornecem-nos um exemplo de zona estranha, estrangeira na cena mesma vernacular da nação. Ali onde se pode apreender a dimensão “indigenous”. Ter nascido dentro do país não evita que se criem essas zonas de obscuridade dentro das quais se movem vidas liminares, tal qual a do imigrante (assim também a de outros excluídos). No entanto, o sentimento e a força do pertencimento tornam-se mais aguçados na trajetória do migrante, submetido este a choques de violência simbólicos, sem transições ou intermediações. O imigrante mergulha no tempo familiar, no tempo da coletividade. Sem âncora referencial, a sua experiência de espacialidade identifica-se com a do mito da terra-mãe, herança materna transmitida numa escrita que jorra da própria terra. O seu chamado remete à religião, ao sagrado (E.T, p. 80):
Eu sou tua terra. Sou teu pai e tua mãe
Longe dela, no anonimato dos centros urbanos, dá-se o encontro de trajetórias migrantes, quase sempre incertas, imprevistas e trágicas.
II – Essa terra me enxota
O filho desapareceu no mundo, contra a sua vontade para nunca mais voltar. Era ainda um menino, a bem dizer. Aquela coisa tonta foi afavor. Arreliou o tempo todo, enganjentou, infernizouojuízo dopovaréu das redondezas que veio emromaria,para lhe dar conselhos, pedir, pedir, pedir. E foi assim que ele se deu por vencido, como se tivesse de assistir de braços cruzados à sua própria desgraça, daí por diante.
(E.T., p. 48)
A citação da narrativa de Essa Terra aponta-nos para o grau de conflitividade latente na migração: pressentimentos, desejos, sonhos, fatores não controláveis por meios políticos e que desmarcam o imigrante nordestino sertanejo de perpetuar a triste sina dentro das próprias fronteiras do país. A experiência de migração passa a ser uma experiência de perda da pátria (JIMÉNEZ, 1996, p. 140). Nosso personagem transforma-se, na realidade, num sem-nação, sem terra, sem tempo e nômade (NOVAES, 1999, p. 405).A terra o impele, enxota-o, arruína o mito. O velho pai de Nelo, que viu os seus filhos partirem, encena o quadro dramático:
Não, não olharia para trás. Veria os pastos desolados, os pendões secos dos cactos inúteis, o sisal da sua ruína. Tudo agora poderia ser reduzido à labareda de uma coivara, podia mesmo ter tocado fogo em tudo antes de partir, assim como havia queimado todo o dinheiro nessa plantação, que não serviu nem para uma corda com que pudesse se enforcar. (E. T., p. 59)
Não há mais uma terra-mãe, mas um objeto de domínio, produto da exploração de natureza. Uma terra em luta com a técnica que, dizia Benjamin em contexto planetarizado, expulsa, enxota, sem remissão a nós, homens modernos e errantes, de nossa pátria mais interior (Apud JIMENEZ, op. cit., p. 141-142). Enxotado, o imigrante torna-se um desterrado da pátria, da natureza, da cultura. Como todos os desterrados, flutua sem raízes, no vazio (Ibidem, p. 142). Experiência de errância que é chave no entendimento da própria experiência da nação moderna e pós-moderna.
A migração mina tradição de cultura. Provoca entropia na pretensa homogeneidade nacional que cabe aos meios de comunicação de massa difundir. O sujeito cultural rodopia na configuração massiva dos processos de transmissão e recepção midiática, clivado entre imagem real e imagem ideal:
Salvador, capital do amor. Atenção, muita atençâo. Deus fala hoje pela cadeia nacional de televisão, atenção, Junco, ligue seus vinte e tantos aparelhos hoje às oito da noite. Deus vai falar. Ele existe. O que ele não quer é se envolver. (E. T., p. 108)
Aterra amada retoma na forma de ícone. Sem messianismos utópicos, sem humanismos enganadores, o imigrante baiano depara-se com as novas fronteiras do mundo neocolonialista, para o qual se mostra perturbador em sua força centrífuga. Trazendo para cá a problematização da experiência migrante feita por Bhabha (1998, p. 308), diríamos que o Deus dos migrantes brasileiros nordestinos expressa-se inequivocamente sobre a questão (parafraseamos Bhabha): o queele não quer é se envolver.
III - Essa terra me enlouquece
Terra desolada. Homens desolados. Isso conduz á loucura.
Nascemos numa terra selvagem, onde tudo já estava condenado desde o princípio. Sol selvagem. Chuva selvagem. O sol queima o nosso juízo e a chuva arranca as cercas, deixando apenas o arame farpado, para que os homens tenham de novo todo o trabalho de fazer outra cerca, no mesmo arame farpado. E mal acabam de fazer têm de arrancar o mata-pasto, desde a raiz. A erva daninhaque nasceu com a chuva, que eles tanto pediram a Deus. (E.T., p. 83)
A terra indomada altera a face do mapa da nação. Cria áreas de convulsões e abala a construção de símbolos que buscam definir identidades nacionais. Maldita pela própria natureza (E.T., p. 100). Reinterpreta-se a letra do hino nacional, hiperbólica, paradisíaca: Gigante pela própria natureza. Essa terra: ame-a ou deixe-a. Não seria nada fácil. Amada, idolatrada, mas para os que dela estão desenraizados, não se escreveriam narrativas de redenção. As narrativas dos imigrantes nordestinos, baianos, sertanejos, não são exatamente as narrativas de que a nação necessita, com as quais se identifica.
A terra enlouquece. Provoca visões que ora põem em cena o indivíduo, ora a coletividade. É sempre a abertura do conflito. A inscrição da liminaridade de sujeitos que estão à deriva do amor e da política numa nação fragmentada. Em vez de conflitos ideológicos, da agitação política, revolução, a loucura, o endoidecimento. A escrita solitária do doido explode o tempo, a história, o discurso da nação:
Com os meus trapos te agasalho, de baixo do meu massapé.
Vem, que eu te agasalharei.
Não sentirás calor nem frio,
Não sentirás dor nem horror.
Vem, queeu te agasalharei.
Tua cama tem sete palmos,
Tua vida ficou mais funda.
Vem, que eu te agasalharei.
A chuva chove nas flores,
Tua coberta é macia.
Vem, que eu te agasalharei.
Eu sou a estrada, sou o fim da estrada,
(E.T., p. 96)
IV — Essa terra me ama
Não há mais um cenário românticodo exílio do poeta. Minha terra não tem palmeiras. Tem suco de mata-pasto. Sumo, como se diz por aqui. Veneno da melhor qualidade (E.T., p. 98). Amor e ódio. Ternura e brutalidade. Mergulho no pesadelo. Medo e coragem. Desejo de vida e de morte entrelaçado. Os quesaíram, os que voltaram, os que ficaram são apanhados pela mesma febre, pela mesma loucura, namesma rede de afetos sem exaltação cívica. Exilados nas suas trajetórias de sombras. Eles serão um dia estrume dessa terra: essa terrame ama. A terraé embriaguez, uma carga de afeto, o incompreensível:
...digam a papai que roça é uma porra. (E.T., p. 107)
A ela são atribuídos os fracassos, as obsessões. Mesmo longe, a terra persegue como um fantasma, fantasia de identidade e origem. O ônibus, o carro, o pau-de-arara acenam com o lá, com o falso mapa do tesouro à espera do imigrante nas metrópoles. Fazem circular o conteúdo dessas fantasias e proliferar posições de desejo responsáveis pelo fluxo e refluxo da imigração, numa nação rasgada em estradas.
Este carro rasga uma estrada que te rasga e pouco te importa se esta é a estrada que rasga o umbigo, o coração ou o cu do Brasil. Salcador-Bahia, para os baianos. Recife-Pernambuco falando para o mundo. Alô, alô, Serviço de Alto-falantes A Voz do Sertão, oferecendo mais esta linda página musical para a moça de azul e branco que neste momento passeia na calçada da igreja de mãos dadas com a moça de rosa e amarelo. As cores e as flores também enlouquecem. Satanás pede clemência, está seco no inferno. Salvador, capital do amor. (E.T., p. 107-108)
Enquanto isso as classes dominantes, sedentárias, conservadoras mantêm-se “no alto”. Nas cenas de baixo, permanecem estranhas ao reino da opinião os imigrantes, nos espaços atravancados das cidades, na urgência de viver que se ancora no corpo. O teatro da nação não se encerra. Há os que ficam, os que voltam e sempre mais um a sair.
-Saiba de uma coisa, papai. Eu vou embora.
-Para onde?
-O dinheiro que eu receber da Prefeitura, no fim do mês, é para comprar uma passagem.
-Mas para onde você vai?
-Para São Paulo.
-Você é igual aos outros. Não gosta daqui – falou zangado (...)
-Ninguém gosta daqui. Ninguém tem amor a esta terra.
(...)
-Passado o sermão, papai amansou a voz. Parecia mais conformado do que aborrecido:
-Você faz bem – disse. Siga o exemplo – Abaixou as vistas, sem completar o que ia dizer
(E.T., p. 111)
No território dramático da nação, imigrantes estão em cena sem interrupção.
Referências Bibliográficas:
BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis,Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998 (Coleção Humanitas).
JIMÉNEZ, José. Sem pátria: os vínculos de pertinência no mundo de hoje. Novos paradigmas, cultura e subjetividade (Dora Fried Schnitman, org.). Trad. de Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
NOVAES, Cláudio. Estética da migração: identidade e nomadismo. Seminário ABRALIC Norte/Nordeste CULTURAS, CONTEXTOS E CONTEMPORANEIDADE / ANAIS. Salvador: EDUFBA / Gráfica da Universidade Federal da Bahia, 1999.
RABINOVICH, Elaine Pedreira. A casa como tempo:a bilheira e as três temporalidades.
Revista de Psicologia Ciência e Profissão, ano 17, nº 3, 1967.
RIBEIRO, Darci. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
TORRES, Antonio. Essa terra. 11a ed. São Paulo: Ática, 1994.